Trilha da Torre: Fase 5


26 de Maio de 2019

Após várias tentativas conseguimos redesenhar o mapa da região onde o Espia Fogo está localizado. Com base na última fase, onde de fato havia uma conexão entre o segundo morro e a montanha tanto almejada, descobrimos que nossa subida não nos levou ao ponto mais alto do morro, mas sim a uma clareira que dava acesso à antiga estrada construída para chegar à torre.



Nossa partida foi marcada pela economia de tempo de mais ou menos 1h20 de moto dentro do território da Melhoramentos. Em 40 minutos atravessamos os dois primeiros morros onde estão localizadas as torres de alta tensão que seguem pela antiga Vila do Tico-Tico. Conforme nosso estudo, precisávamos seguir pela primeira trifurcação no meio e as demais bifurcações sempre à esquerda, pela trilha de terra irregular coberta por galhos derrubados, pedras e a vegetação típica da região, eucaliptos.



Foi numa subida bem íngreme que a moto travou sua roda traseira num galho impedindo nossa travessia. Quase caímos quando ela tombou para a esquerda. Após colocarmos a Kawasaki em pé novamente, tentamos ligá-la, mas nem sinal de vida. Acreditamos que a gasolina havia se espalhado por dentro, o que impedia a partida elétrica. Sugeri que a deixássemos ali até se estabilizar, já que havíamos ganhado muito tempo. Assim caminhamos pelo pequeno trecho de subida que nos restava e a íngreme descida que nos levou até a clareira.

A partir daquele momento estávamos presos à decisão que deveríamos tomar na última fase. Para que lado seguir? De fato a entrada da montanha era a mesma, mas nosso erro do dia 19 de Abril foi ter continuado tentando achar a antiga estrada seguindo em frente.

Conforme relatos do meu primo, quando ele havia chegado nela há quase 20 anos, assim como meus parentes que já estiveram lá na década de 50 e 60, a estrada oficial parte pela direita a partir da clareira. Quando nos deparamos com ela tudo parecia se acertar, pois havíamos encontrado o caminho que por muitos anos ninguém traçou.

Nosso maior erro foi pensar que a cada tentativa as coisas pareciam ser mais fáceis. Apesar de encontrarmos a estrada, a vegetação típica da região se fechava de tal forma que somente com um facão afiado, dois cajados de aproximadamente 2 metros e um inseticida poderíamos seguir em frente. A cada avanço encontrávamos um bloqueio diferente, ora era a própria natureza cerrando o caminho, ora eram as aranhas impedindo a passagem e os marimbondos avançando sobre nós. Num determinado momento, ouvimos um barulho que parecia ser algum mamífero de porte médio. Ao longe parecia ser um grande galho despencando, mas o ruído era típico de algum animal percorrendo por ali.



Quase desistimos faltando menos de 100 metros. Não havia mais sequer uma marca de estrada e a mata estava cada vez mais fechada. Apenas se ouvia alguns pássaros ao redor. Quando olhamos para nossa direita encontramos uma subida bem íngreme, que nos fazia questionar como há 20 anos um jipe e uma moto foram capazes de passar. Só vivendo essa experiência para entender o grau de dificuldade que enfrentamos. Com um pingo de esperança encontramos uma tampinha de garrafa pet no caminho, toda suja de terra. Ela estava ali há pelo menos 10 anos.



Nossa expectativa aumentou e continuamos nosso trajeto até o ápice da montanha, quando novamente a mata se fechou. Após abrirmos mais um trecho de trilha encontramos uma clareira que seguimos por alguns metros. Meu primo apenas me olhou e disse: olha ali. Apontando para minha direita.

E lá estava ela. Após quase 3 horas de montanha à dentro podíamos ver o topo da tão estimada torre, de tantas árvores altas ao redor. Uma pequena comemoração pelo grande avanço desde nossa primeira tentativa a qual não conseguimos nem sequer chegar à montanha.



Naquele momento nossa preocupação era outra. Onde a região é plana e composta por pedras enormes sob o sol, há forte índice de se encontrar cobras cascavéis. Às vezes o problema pode até ser não encontrá-la e sim apenas ouvi-la, como ocorreu. Ao longe um guizo característico que nos fez redobrar nossa atenção.




O terreno que parecia ser fácil de atravessar poderia estar cercado de cobras, uma vez que entre as pedras havia uma rasa mata que impedia de se enxergar o chão. Com o cajado raspamos toda a região para garantir que não havia sequer uma delas. Não sei dizer se foi sorte ou nosso barulho as espantou.

Há alguns metros estava o Espia Fogo, escondido por trás de uma vegetação bem alta e uma cerca enferrujada, com uma pequena passagem na lateral direita. Uma torre de aproximadamente 24 metros de altura feita basicamente de ferro trançado. Sua escada vertical nos leva até seu topo, onde é possível observar focos de incêndio na região e uma parte dos bairros próximos (Cajamar, Perus, Anhanguera e Caieiras).




Subimos grande parte de sua estrutura, mas pelas condições de preservação não seria seguro continuarmos até o topo. Havia muita ferrugem e partes deterioradas. Deixamos nossa marca usando uma corda vermelha enrolada nas hastes (degraus) da escada. Ainda no alto avistei grande parte da mata ao redor e garanti algumas fotos e vídeos dessa admirável paisagem.





Nossa volta foi marcada pelo modo uga-uga e em 15 minutos descemos a montanha. Tempo recorde desde a última tentativa que fizemos em 20 minutos, aproximadamente, sem ter chegado ao topo. De volta na clareira, nossa última preocupação era fazer a moto funcionar novamente e assim seguimos até ela, que estava localizada há alguns metros.

Meu primo foi na frente enquanto eu preparava a câmera para um último vídeo, e ao longe ouvi o ruído na menina. A Kawasaki estava funcionando normalmente.

Agora batizados de Guerreiros do Espia Fogo (ou Espia Louco, rs), podemos dizer: Missão Cumprida!




Os aventureiros: Lincoln Vicencio e William Olimpio.